Meu pai já tinha morrido, eu devia ter uns doze anos, e quando me batia tristeza e saudade, os discos clássicos dele sempre me traziam conforto. Noturno em mi bemol maior Opus 9 n°2 era a última música de um LP chamado Bravo! Uma coletânea de clássicos que eu eventualmente ouvia não só pelas belas músicas, mas por trazer a assinatura do meu pai na capa. Meu pai tinha uma das caligrafias mais belas que já vi. Este Noturno de Chopin, além dessa estreita ligação com a memória do meu pai, tem sua própria história.
Era uma tarde entediada, eu coloquei o LP pela enésima vez na vitrola, pequei uma HQ do meu irmão e deitei no tapete. Lendo enquanto ouvia. Esta HQ, que eu não lembro bem o nome, nem exatamente a história. Só lembro que era relacionada à vida e morte. Até hoje quando ouço, lembro do cara da HQ que tentou enganar a morte e recebeu o castigo de viver inválido preso a uma cama.
Desde então esta música tão linda me lembra vida e morte, do quanto se pode estar morto em vida, como o cara da HQ, e vivo na morte, como o meu pai que se fazia presente naquele LP, enquanto eu ouvia as músicas.
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